Entrevistas 21 de julho de 2026
“2026 será o ano de consolidação da transformação estrutural da TAAG”
lovis Rosa garante que a companhia entrou numa nova fase de reorganização, modernização operacional e reforço da conectividade de Angola

O exercício de 2025 ficou marcado por uma profunda reorganização da TAAG. Que balanço faz deste período?
2025 foi um ano particularmente exigente para a TAAG, mas também um ano absolutamente decisivo para o futuro da companhia.
Foi um período de reorganização operacional, modernização estrutural e preparação de uma nova fase de crescimento.
Num contexto internacional muito complexo para a aviação civil, marcado pelo aumento dos custos operacionais, pela pressão sobre o combustível, pelas dificuldades nas cadeias globais de fornecimento e por exigências regulatórias cada vez mais rigorosas, a TAAG avançou com um conjunto de medidas estruturantes fundamentais para assegurar maior estabilidade e sustentabilidade futura da companhia.
Ao longo do exercício, a companhia transportou cerca de 1,26 milhão de passageiros, operou uma rede de 26 destinos e encerrou o ano com uma frota de 32 aeronaves. Mais importante do que os números isolados, foi a criação de bases mais sólidas para a transformação da companhia. 2026 deverá ser o ano de início da consolidação da matriz de transformação da TAAG.
A modernização da frota tem sido apresentada como uma prioridade estratégica. Qual é o impacto concreto dessa aposta?
A modernização da frota deve ser analisada de forma integrada com a transição ope racional para o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto e com a estratégia de consolidação de Luanda como hub regional e intercontinental.
Estes três factores estão directamente ligados. A nova infra-estrutura aeroportuária, combinada com uma frota mais moderna, eficiente e preparada para operações de médio e longo curso, cria condições para melhorar de forma substancial a experiência e a jornada do passageiro, reforçando simultaneamente o posicionamento estratégico de Angola na aviação africana. A introdução progressiva dos Boeing 787 Dreamliner e dos Airbus A220 representa um salto qualitativo importante para a companhia.
Do ponto de vista do passageiro, esta renovação traduz-se num novo produto a bordo, com maior conforto, melhor experiência de viagem, sistemas de entretenimento mais modernos e uma configuração interior mais ajustada às actuais dinâmicas do mercado internacional, nomeadamente nos segmentos Business, Premium Economy e Economy. Mas os ganhos não são apenas visíveis para o cliente. Do ponto de vista operacional e financeiro, estas aeronaves permitem ganhos muito relevantes em eficiência, optimização de custos e sustentabilidade operacional.
Em determinadas rotas internacionais, os Boeing 787 permitem reduzir o consumo de combustível em cerca de 30%, enquanto os Airbus A220 registam ganhos próximos de 20% em algumas operações regionais. Esses ganhos contribuem directamente para a redução de custos operacionais, para o crescimento da receita e para a consolidação da sustentabilidade futura da companhia.
Quais as razões que levam a companhia a manter aviões antigos em rotas importantes como a Europa?
Em 2025, a TAAG recebeu recomendações para melhoria dos seus procedimentos por parte da EASA (Autoridade Europeia de Segurança da Aviação). Neste sentido, a companhia acelerou o seu processo de conformação operacional tendo implementado um programa interno de excelência ope racional com apoio e supervisão da Lufthansa Consulting. Neste sentido, a companhia espera concluir este programa até ao mês de Setembro, altura em que estima estar em condições de colocar os Boeing 787 em rotas como Lisboa.
Quando é que os passageiros para estes destinos vão poder desfrutar do conforto dos aviões mais modernos que a companhia possui?
A TAAG já opera os novos Boeing 787 para mercados como São Paulo, Cape Town e Joanesburgo. A companhia estima estar em condições de operar para Lisboa a partir de Setembro de 2026.
Qual é hoje o nível de dependência da TAAG em relação ao apoio directo do Estado e que passos estão a ser dados para reforçar a autonomia financeira da companhia?
No âmbito da visão de recuperação da empresa dentro do contexto da Covid 19, o Estado angolano, na qualidade de acionista único da TAAG, assumiu a responsabilidade de capitalizar a companhia. Apoios como estes foram uma prática da indústria na Europa e nos Estados Unidos durante a epidemia, tendo várias companhias recorrido a múltiplos pacotes de apoios financeiros. A título de exemplo, a TAP, que é uma concorrente directa da TAAG, obteve apoios de fundos públicos de três mil milhões de euros. O projecto de capitalização e recuperação financeira da TAAG ainda está em curso, sendo que um pacote de medidas de saneamento e capitalização foi executado, estando o remanescente em preparação para execução
De que forma a frota cargueira da TAAG está a ser dimensionada para apoiar produtores nacionais e reduzir custos logísticos?
A maioria dos produtos de carga aérea mundial viaja no porão dos aviões de passageiros. Os aviões da TAAG, que fazem as rotas intercontinentais como São Paulo e Lisboa, têm uma capacidade de carga por voo que pode ir até às vinte toneladas. Neste âmbito, a TAAG consegue oferecer preços muito competitivos aos produtores e exporta dores nacionais.
Apesar dos investimentos, a TAAG registou um resultado líquido negativo em 2025. Como explica essa realidade?
É importante analisar os resultados da companhia de forma responsável e estrutural.
O resultado líquido negativo reflecte, em grande medida, o impacto dos investimentos estratégicos realizados ao longo do processo de transformação da TAAG. Estamos a falar da modernização da frota, da reorganização operacional, da transição aeroportuária, do reforço técnico, da recuperação dos sistemas afectados pelo cyberattack e da implementação de mecanismos adicionais de segurança, manutenção e conformidade operacional. Nenhuma companhia aérea consegue transformar-se, crescer e modernizar-se sem investimento. O mais importante é garantir que esses investimentos criem condições para uma companhia mais eficiente, mais disciplinada e mais sustentável no médio e longo prazo.
A transformação da TAAG não pode ser analisada numa lógica imediatista. Trata-se de um sector alta mente técnico, intensivo em capital e extremamente exigente do ponto de vista operacional.
Que importância estratégica atribui ao Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto no futuro da companhia?
O novo aeroporto representa uma oportunidade histórica para Angola e para a própria integração económica do continente africano.
O Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto tem condições para afirmar Angola como uma plataforma estratégica de conectividade regional e intercontinental entre África, Europa, Médio Oriente, Ásia e América do Sul. A consolidação do hub em Luanda constitui hoje uma das principais prioridades estratégicas da TAAG. A localização geográfica de Angola é extremamente competitiva e permite posicionar o país como ponto de ligação natural entre diferentes regiões do mundo.
Neste contexto, o desenvolvimento progressivo das ligações para a Ásia assume particular relevância estratégica.
Essas rotas não devem ser vistas apenas na óptica do transporte de passageiros, mas também como instrumentos de facilitação económica e comercial, capazes de apoiar as cadeias logísticas, facilitar importações e impulsionar exportações angolanas e africanas para mercados internacionais de elevada relevância económica.
Ao mesmo tempo, o reforço da conectividade internacional cria melhores condições para o crescimento do turismo, do investimento privado, do comércio e da mobilidade empresarial no continente.
A TAAG tem igualmente reforçado a aposta no capital humano nacional. Que resultados já são visíveis?
A valorização do capital humano é absolutamente central para a transformação da companhia.
Ao longo de 2025, a TAAG realizou centenas de novas contratações nas áreas técnicas e operacionais, incluindo pilotos, tripulantes de cabina e técnicos especializados.
A companhia investiu igualmente na formação estruturada de pilotos cadetes e técnicos de manutenção aeronáutica, num dos maiores programas de capacitação técnica nacional já desenvolvidos pela companhia. Trata-se de um investi mento estratégico no futuro da aviação civil angolana. A segurança operacional, a fiabilidade e a qualidade de serviço dependem directamente da competência técnica das pessoas.
Mas dependem igualmente da construção de uma cultura organizacional mais disciplinada, mais exigente, mais técnica e mais orientada para desempenho.
A confiança dos passageiros continua a ser um dos grandes desafios da companhia?
Naturalmente que sim. Os passageiros exigem regularidade, previsibilidade, qualidade de serviço e maior estabilidade ope racional. E têm razão em fazê-lo. A recuperação gradual da confiança constitui hoje uma prioridade estratégica da TAAG.
Estamos a trabalhar no reforço da disponibilidade técnica da frota, na melhoria da regularidade operacional, na modernização dos sistemas internos e na criação de uma cultura organizacional mais exi gente e orientada para desempenho.
Esse é um processo com plexo, mas irreversível. O nosso compromisso é construir progressivamente uma companhia mais fiável, mais eficiente e mais preparada para responder às expectativas dos passageiros e às exigências da aviação internacional.
Que papel deve desempenhar a TAAG no desenvolvi mento económico e na projecção internacional de Angola?
A TAAG é muito mais do que uma companhia aérea. É um activo estratégico nacional.
A companhia desempenha um papel fundamental na mobilidade, integração territorial, conectividade regional, desenvolvimento económico e projecção internacional de Angola. Nem todos os países conseguem consolidar uma companhia aérea de bandeira com capacidade ope racional internacional.
Angola decidiu continuar a investir nesse activo estratégico. E esse investimento exige responsabilidade, rigor, capacidade de execução e visão de longo prazo. A TAAG tem igualmente um papel importante na integração regional africana, no reforço das cadeias logísticas, no apoio ao comércio e na aproximação económica entre mercados.
Qual é a principal mensagem que gostaria de transmitir aos angolanos sobre o futuro da TAAG?
A principal mensagem é de responsabilidade e compromisso. A TAAG está consciente dos seus desafios, mas está igualmente comprometida com um processo sério de transformação e modernização. 2026 deverá marcar o início da consolidação efectiva dessa transformação estrutural. Um ano de maior disciplina operacional. Um ano de maior rigor. Um ano de maior exigência interna. E um ano de reforço progressivo da confiança dos passageiros, dos parceiros e do mercado. Estamos a trabalhar para construir uma companhia mais segura, mais fiável, mais eficiente e mais preparada para responder às exigências futuras da aviação africana e mundial.
Uma gentileza do Jornal de Angola
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